Arquivo do mês: maio 2015

“CATADORES DE ESPERANÇAS”

Que a chuva seja uma bênção dos céus não há quem o possa negar. Nem mesmo o mais empedernido dos ateus! Afinal de contas, a chuva é água e água é vida para os homens e para a terra.

Na minha infância, porém, a chuva era mais que água. Era uma dádiva Divina que abria corredeiras na terra, oferecendo aos cuiabanos minúsculas pepitas de ouro…

Após a chuva, os moradores do bairro saiamos pelas ruas, a maioria sem calçamento, para catar ouro… Isso mesmo, ouro de aluvião, que escorria pelos filetes de água que sulcavam o solo por todos os lugares!

As pessoas se acocoravam no meio da rua, com um pedaço de madeira ou uma lamina de metal, revirando o cascalho, a areia, em busca de fragmentos de ouro que a enxurrada fazia brotar do coração da terra.

Eu morava no Bairro do Baú, próximo do Córrego da Prainha e da Ponte da Confusão, onde ruas sem calçamento, um solo com muito pedregulho e bastante declives, criavam um ambiente propício para essa animada garimpagem urbana.

 Trago indelével na mente a lembrança de alguns desses catadores, personagens marcantes de minha infância: Seu Dito de Dona Cidu – sisudo e rabugento; Seu Zé Canhambola – animado e bem humorado; Seu Pedro Chagas – ativo e conversador; Seu Sebastião Farias – austero e unha de fome; Seu Anísio Almeida (meu sogro) – falante e contador de histórias; Seu Antonio de Dona Nhanhá – calado e sério.

Com eles aprendi a recolher em um vidrinho de remédio específico os fragmentos de ouro que encontrava. Para mim e meus amigos de infância (Juvi, Juca, Altamir, Nego, Dega, etc), o pós chuva era uma festa, pois nos dava a oportunidade de conseguir dinheiro para o ingresso do cinema e do circo e para a compra de guloseimas.

Nos divertíamos catando ouro e competindo uns com os outros para ver quem tinha mais sorte… Mesmo não encontrando grandes quantidades e nem pepitas valiosas, cada pedacinho de ouro que recolhíamos naqueles vidros somavam sonhos em nossos corações, alimentavam fantasias em nossas mentes… A vida não era fácil, mas naquele jeito simples de ser encontrávamos alegria de viver…

Aqueles eram momentos que nos enchiam de alegria e nos faziam crer no amanhã. Nossas almas se faziam leves, fáceis de serem elevadas até Deus. Catando ouro na rua, ninguém buscava riquezas materiais… Buscávamos a vida. Éramos catadores de esperanças!

Infelizmente, em nome do progresso, as ruas ganharam calçamento e o asfalto pôs fim à catação de ouro pelas ruas da cidade. A esperança não podemos mais encontra-la em coisa tão singela. Nem se pode mais catá-la no meio da rua… A chuva ainda é uma bênção… A cidade e os homens é que não são mais os mesmos!

Maurides Celso Leite (um garimpeiro cuiabano que catava esperanças pelas ruas da cidade, prospectando sonhos de um futuro feliz, no tempo em que a vida comunitária fazia dos vizinhos amigos e da convivência diária um exercício permanente de solidariedade e de camaradagem).

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Ser ou Não Ser (Honesto), Eis a Questão

 

O cuiabano tradicional era metido a pensador,

Matutava a vida, ora numa rede à sombra, no quintal,

Ora, filosofando pancudo, numa roda de amigos.

Pensava a vida com seriedade e compromisso, afirmando valores ancestrais

Com a autoridade de quem sabia o que falava.

Sua fonte de sabedoria era o berço, a família,

Onde nutria a mais-valia da dignidade, da honradez e do trabalho.

O cuiabano era culto ou rústico. Ignorante, jamais.

Desfrutava de um saber que a cidade inspirava.

Na solidão de seu isolamento geográfico

A urbe pequena e mansa convidava à reflexão.

O cuiabano ostentava pose de filósofo, era pancudo,

Porque detinha a autoridade moral de ser aquilo de que falava.

Sua riqueza era o ser e o saber vivenciado no dia a dia.

E esse patrimônio não se corrompia. Não cedia à tentação.

A vida era simples, como a cadeira na calçada e a prosa com os vizinhos.

Hoje, porém, na modernidade de nossos dias,

Diante desse festival de iniquidades que assola o país,

O cuiabano se apropria do dilema Shakespeariano na peça HAMLET,

Para chamar a atenção de todos os que vivem neste torrão, dizendo:

Ser ou não ser (honesto), eis a questão!”,

Essa é uma provocação de quem se orgulha de sua história

De quem não  se conforma com a crise que devasta a pátria envergonhada.

De quem não aceita ser mero expectador do caos.

O cuiabano sabe que seus filhos serão vítimas da passividade

caso não faça algo aqui e agora.

Então responde ao dilema acima com atitude e compromisso,

Invocando os valores que empolgaram seus avós:

“Ainda que doa, vale a pena ser honesto!”

(Maurides Celso Leite, um Cuiabano pancudo que, diante da crise ética que desafia a nação brasileira, relembra, pesaroso, a sombria advertência de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.)

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