Arquivo do mês: agosto 2015

No Tempo dos Carros de Praça

Quando menino, pelos meados da década de 60, morava no Bairro do Baú, cujas ruas não tinham calçamento, como a maioria das ruas dos “arrabaldes” de Cuiabá. Eram ruas de terra, cheias de pó, esburacadas pelas chuvas. Então, não havia sistema de transporte coletivo, como hoje se conhece. O transporte de passageiros era feito através de veículos-lotação, na maior parte das vezes, Kombis Volksvagem, ou através de alguns poucos “carros de praça” que existiam na cidade.

Eu me recordo de três “choferes de praça” que moravam nas imediações do Baú: Seu Gonçalo, que residia na Rua Vila Maria, no larguinho, vizinho da Professora Demitilde e de seu Delfino Bocó. Ao lado de onde é, hoje, o Fato – Curso Preparatório para Concursos,  já na divisa com o centro da cidade. O outro, Seu Ricardo, pai do meu amigo Amauri, que morava no Beco, entre a Rua de Baixo e a Rua do Meio, perto do Hotel Baia e da Ponte de João Gomes. Limite do centro com o Bairro do Baú. Por fim, Tuca Farofa, que veio a ser nosso vizinho, na Rua Tenente Coronel Duarte, hoje, Rua Osório Duque Estrada, próximo de onde funciona o Hospital Ortopédico e de onde ficava a casa de dona Juja, a famosa cozinheira de São Benedito.

Seu Gonçalo era turrão. Não gostava de levar passageiro bairro adentro, para não sujar seu carro de praça de poeira ou lama. Se quisesse, ele fazia a corrida, mas somente até a entrada do bairro, nas imediações da Ponte de João Gomes. Seu Ricardo, apesar de um pouco ranzinza, já era mais maleável. Se a corrida fosse boa, aceitava o passageiro e se aventurava entre os buracos e poças de lama que a água de chuva espalhava pelo bairro. Tuca Farofa, como morador do bairro, não impunha restrições. Era mais pragmático e boa praça. Pagando, levava o passageiro ao bairro e ainda lhe contava boas estórias. Isso tudo eu sei de experiência própria, através das peripécias que vivi, menino e adolescente, nas andanças com meus pais, nos vai-e-vem com os amigos, ou através das histórias contadas pelos mais velhos, como o meu saudoso sogro, Anísio.

Chofer é um aportuguesamento da expressão francesa, “CHAUFFEUR”, que significa, resumidamente, condutor de veículo. Carro de Praça era como se chamava o táxi de hoje. O preço da corrida era estabelecido por acordo. O passageiro dava o local de destino e o CHOFER dizia qual era o preço a ser pago. Você podia regatear pra conseguir melhor preço, o que dependeria dos seus argumentos e da boa vontade do chofer.

Apesar das dificuldades de locomoção, a vida era boa. Você empoeirava os pés, enlameava os sapatos, sujava as roupas, mas tinha liberdade de viver. De ir e vir sem sobressaltos. Ninguém se preocupava com trombadinhas ou arrastões… que não os havia. A notícia ruim custava a chegar. Às vezes, quando chegava, já não era mais tão ruim assim. Diferente de hoje em que a notícia é capaz de chegar antes dos fatos. Virtualmente. O mundo surreal que o pintor espanhol Salvador Dali imortalizou em suas telas, modernamente ganhou contornos de realidade virtual. A internet nos aproxima da informação, mas nos distancia dos fatos. Hoje vivemos a realidade-do-faz-de-conta.

Diante das atribulações atuais, chego a sentir saudades dos tempos em que as ruas não tinham calçamento e o chofer de praça não se atrevia a entrar com o seu Ford, seu Chevrolet ou seu Simca Chambord preto nas maltratadas ruas do meu bairro… E eu tinha que caminhar, empoeirando os pés ou sujando-os de barro, para ir ao cinema ou para passear na fonte luminosa da Praça Alencastro… Naqueles tempos, tínhamos os pés no chão! Literalmente!

Consola-me, porém, o fato de que esse mesmo instrumento digital que me intimida e me lança ao mundo virtual, resgata-me do passado lembranças, fatos e informações que se projetam – registradas – na memória eletrônica dessa prodigiosa (in)consciência coletiva que alarga os horizontes da humanidade. Hoje faço as minhas corridas a bordo  de um GIGABYTE, sem sair do lugar. Mas, de vez em quando, tomo um carro de praça, só pra atiçar as lembranças e exercitar os neurônios.

Maurides Celso Leite (um guri cuiabano dos anos 60, que se envereda nas modernas trilhas dos sítios da internet, recordando-se, nostálgico, dos tempos em que se aventurava nas trilhas de barro que levavam às cacimbas de água no sítio da vovó Joaninha, no Quebra-Pote).

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Calor de Fritar os Miolos

Nos bons tempos dos meus pais, quando a ciência dos mais velhos, construída sobre vivências ancestrais, era valorizada e respeitada, já se dizia que o calor abrasador do sol cuiabano era capaz de FRITAR OS MIOLOS dos incautos e desavisados… Ficar exposto ao sol, além de provocar malina, podia deixar a pessoa com problemas de cabeça…

Os mais antigos tinham o domínio da natureza em geral e da natureza humana, em particular… Naqueles tempos, não havia tantas coisas e informações a distrair o homem do aprendizado de si mesmo e da inteiração com o seu habitat natural… O saber verdadeiro era o autoconhecimento. O conhecimento do homem e da natureza. Essa era a fonte da sabedoria popular.

Havia o saber das Benzedeiras como Dona Brandina e Dona Beleca. Em nosso meio existiam centenas de pessoas iguais a elas. Simples. Iluminadas. Bondosas. Inspiradas. Sintonizadas com Deus. Capazes de perscrutar a alma humana e extrair delas revelações, sonhos, desejos, fragilidades, e de envolve-las em palavras de fé, rezas e orações, que tinham propriedades curativas para suas carências e necessidades.

Chá de Folha de Laranjeira, era calmante. Queimada de Casca de Laranja, curava gripe. Infusão de Folha de Eucalipto era boa pra tosse, bronquite e sinusite. Gemada era um viagra caipira. Mulher de regra (menstruada) não podia lavar a cabeça. As parteiras, como Dona Micaela, traziam ao mundo as crianças, sem sustos. A mulher parida ficava de resguardo, tomando canja de galinha. Dava-se tempo à natureza para fazer o seu trabalho. Para restaurar a força e a energia da mulher. Para a vida retomar seu curso natural.

A água se armazenava em potes e talhas de cerâmica, dentro de casa. Estava sempre fresquinha. Tomava-se uma gostosa água de moringa… Minha mãe até hoje conserva esse hábito saudável… Não toma refrigerantes e nem água gelada. Gerou sete filhos. Seis nascidos em casa. Com parteira. Tem 17 netos e 17 bisnetos. Aos 81 anos, continua forte e lúcida. Em harmonia com a natureza. Em harmonia com Deus.

O calor era mais suportável porque não havia o asfalto que armazena calor e não retém umidade. Também não havia um enorme buraco na camada de ozônio que protege a terra. E o efeito estufa ainda não havia alarmado o mundo com o aumento do aquecimento global. O clima cuiabano era bem quente, mas nem tanto. Então, o sol não causava tanto estrago porque a camada de ozônio ainda não havia sido estuprada pelos gases CFC’s… As geleiras ainda não estavam ameaçadas pelo aumento da temperatura do planeta.

O calor fritava os miolos, mas havia água em abundância pra gente se refrescar. O rio Cuiabá oferecia uma água limpa e fresca, com muitos locais onde ricos e pobres podiam se banhar. No Coxipó da Ponte, de águas claras e frias, tinha a Praia Rica, onde as famílias faziam piqueniques nos finais de semana. No Cuiabá, havia a Praia do Pacheco, na Cidade Alta, onde passei bons momentos da minha adolescência. Em Santo Antonio, aconteciam temporadas de praia bastante concorridas e animadas. E ainda tínhamos o Rio dos Peixes, o Mutuca, o Rio Claro, a Salgadeira e outros recantos mais, que hoje estão sonegados ao uso do povo. Infelizmente, a incompetência, a ganância, a poluição e os males do  progresso tiraram do nosso alcance o usufruto desses paraísos das águas.

Hoje o sol frita os miolos dos desprevenidos e coloca em risco a saúde do homem. O câncer de pele, que nunca me preocupara antes, quando jogava, sob um sol a pino, as minhas peladas diárias no campo do RANCA TOCO ou QUEBRA-DEDO, agora é uma ameaça que paira sobre todos… A falta de diálogo entre o homem e a natureza levou a essa situação alarmante. Esse calor de fritar os miolos, entretanto, ainda pode ser domado. Basta que o homem se reconcilie com a natureza, passe a pensar no próximo como em si mesmo e procure legar ao mundo a paz, a segurança e o conforto que almeja para os seus… Falta amor, irmãos! Falta Deus!

Maurides Celso Leite (um Cuiabano que se banhava nas águas do Cuiabá, do Coxipó da Ponte, do Córrego da Prainha, do Córrego da Laje, do Córrego do General, e que hoje chora a destruição dessas riquezas naturais, com os olhos ardendo pela fumaça das queimadas que devastam o Cerrado, onde colhia marmelada e algodãozinho, ouvindo o cantar da Juriti).

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Nos Embalos de Sábado à Noite

NO INÍCIO DA DÉCADA DE 70, O MOVIMENTO HIPPIE – DE PAZ E AMOR – PREGAVA A PRESERVAÇÃO DA NATUREZA, O FIM DA GUERRA DO VIETNÃ, A LIBERDADE SEXUAL, A INFORMALIDADE DE VIVER A VIDA SEM COMPROMISSOS “CARETAS”. SE ERA UMA ÉPOCA DE CONTESTAÇÃO DO STATUS QUO, TAMBÉM ERA UMA ÉPOCA DE ROMANTISMO…

OS HOMENS COMEÇARAM A DEIXAR DE SER FORMAIS OU CARETAS E ADERIRAM À MODA DO CABELO COMPRIDO OU BLACK POWER, SAPATOS PLATAFORMA, CALÇAS BOCA DE SINO, ROUPAS COLORIDAS – PSICODÉLICAS, COMO SE DIZIA… ATÉ AS LUZES MULTICORES E FAISCANTES DAS BOATES, ERAM DITAS PSSICODÉLICAS – PRA DANÇAR BEE GEES, FRED MERCURY OU JOHN TRAVOLTA, OU OS NACIONAIS, OS INCRÍVEIS, RENATO E SEUS BLUE CAPS, THE FEVERS, TIM MAIA, A TURMA DA JOVEM GUARDA.

AS MULHERES DESLANCHARAM NA PÍLULA ANTICONCEPCIONAL, SÍMBOLO DA LIBERDADE SEXUAL E DA EMANCIPAÇÃO FEMININA – COMEÇAVA A MAIORIDADE SOCIAL FEMININA… O MUNDO NUNCA MAIS SERIA O MESMO… PANTALONAS COLORIDAS OU BATAS INDIANAS. VESTIDOS CURTÍSSIMOS E BOTAS DE CANO ALTO. VESTIDOS LONGOS E FOLGADOS. SEMPRE CORES BERRANTES.

AS MÚSICAS ERAM DANÇANTES, DISCOTECAS, NOVELA DANCING DAYS, MAS TAMBÉM ERAM ROMÂNTICAS, POIS O AMOR ESTAVA NA MODA… A DÉCADA COMEÇOU COM O TRICAMPEONATO DO BRASIL NA COPA DO MUNDO DO MÉXICO. A MÚSICA PRA FRENTE BRASIL “NOVENTA MILHÕES EM AÇÃO, PRA FRENTE BRASIL, SALVE A SELEÇÃO…” EMPOLGOU A TORCIDA BRASILEIRA… APESAR DO VIÉS NACIONALISTA MILITAR…

RECORDEMOS ALGUMAS MÚSICAS ROMÂNTICAS QUE FIZERAM SUCESSO E EMBALARAM OS CORAÇÕES DOS JOVENS NAQUELA AGITADA DÉCADA: As Rosas Não Falam (1976);  Apesar de Você (1972); Detalhes (1970); Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida (1970); Canta Canta Minha Gente (1974); Você Abusou (1971); Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos (1971); Força Estranha (1978); Gostoso Veneno (1979); Folhetim (1977); Flor de Lis (1976); Sonho Meu (1978); Amada Amante (1971); Grito de Alerta (1979). Mar de Rosas (1978); A Namorada Que Sonhei (1970).

CERTAMENTE, OS ANOS 70 FORAM TEMPOS INESQUECÍVEIS, DE GRANDES TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS, POLÍTICAS E CULTURAIS. TERMINOU A GUERRA DO VIETNÃ, ACABOU A GUERRA FRIA, MATO GROSSO FOI DIVIDIDO. SUL E NORTE. COMEÇOU O PONTIFICADO DE JOÃO PAULO II, O PAPA PEREGRINO, QUE MUDOU A IGREJA CATÓLICA, RETOMANDO SUA VOCAÇÃO APOSTÓLICA. DEU-SE A LIBERAÇÃO DOS COSTUMES. A JUVENTUDE DESCOBRIU SUA FORÇA, IMPÔS SUA LIBERDADE DE EXPRESSÃO. A MULHER COMEÇOU SUA EMANCIPAÇÃO…

FOI EM MEADOS DA DÉCADA DE 70 QUE INGRESSEI NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMT, ONDE UMA TURMA DE COLEGAS (EU, BENEDITO CORBELINO (VIKA), LUIZ CARLOS GOUVEIA, JOAREZ GOMES, RÉGIS VANDER, HILÁRIO CARLOS, LUIZINHO CORREA, ALAIR NEVES, LUIZA E OUTROS), FAZÍAMOS UMA ANIMADA RODA DE SERESTA ÀS SEXTAS-FEIRAS, AO LADO DA UFMT, NO BARZINHO DA ESQUINA (CARINHOSO), EM  FRENTE À LOJA DA CITY LAR DA FERNANDO CORREA… QUASE SEMPRE LÁ ESTAVA CONOSCO O SAUDOSO MESTRE DE DIREITO CIVIL, DESEMBARGADOR LEÃO NETO DO CARMO… QUE ATÉ COMETIA UMAS CANÇÕES CANTANDO NELSON GONÇALVES.

ESSE FOI UM TEMPO MÁGICO. ONDE AS COISAS ACONTECIAM VERTIGINOSAMENTE. COMECEI A DÉCADA MENINO, INGRESSEI NA FACULDADE EM SUA METADE, GRADUEI-ME EM DIREITO E CASEI-ME AO SEU FINAL. NESSE ENTREMEIO VIVI EXPERIÊNCIAS RIQUÍSSIMAS: TORNEI-ME UM HOMEM. COMECEI A TRABALHAR.  TIVE UM FILHO. VIVI OS EMBALOS MAIS GOSTOSOS DOS SÁBADOS À NOITE DA MINHA VIDA…

DEPOIS DE ENTÃO, O MUNDO NUNCA MAIS FOI O MESMO… FOI-SE UM BELO TEMPO DE MINHA VIDA. DESSES DIAS, FICARAM ETERNIZADOS EM MINHAS LEMBRANÇAS MOMENTOS QUE AINDA HOJE FAZEM A VIDA VALER A PENA… FOI NOS EMBALOS DE UM SÁBADO À NOITE, NO DIA 09 DE DEZEMBRO DE 69, NA FESTA DOS SEUS 15 ANOS, QUE EU DANCEI, PELA PRIMEIRA VEZ, COM A MULHER AMADA , AO SOM DA MÚSICA “A NAMORADA QUE SONHEI”! COMECEI A NAMORÁ-LA NO PRIMEIRO ANO DA DÉCADA. CASAMO-NOS EM 78.

Maurides Celso Leite (Um cuiabano romântico, saudoso dos tempos de sonhos,  aventuras, descobertas e conquistas, que foi a década rica e mágica dos anos 70… dos inesquecíveis  embalos de sábado à noite).

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