“CATADORES DE ESPERANÇAS”

Que a chuva seja uma bênção dos céus não há quem o possa negar. Nem mesmo o mais empedernido dos ateus! Afinal de contas, a chuva é água e água é vida para os homens e para a terra.

Na minha infância, porém, a chuva era mais que água. Era uma dádiva Divina que abria corredeiras na terra, oferecendo aos cuiabanos minúsculas pepitas de ouro…

Após a chuva, os moradores do bairro saiamos pelas ruas, a maioria sem calçamento, para catar ouro… Isso mesmo, ouro de aluvião, que escorria pelos filetes de água que sulcavam o solo por todos os lugares!

As pessoas se acocoravam no meio da rua, com um pedaço de madeira ou uma lamina de metal, revirando o cascalho, a areia, em busca de fragmentos de ouro que a enxurrada fazia brotar do coração da terra.

Eu morava no Bairro do Baú, próximo do Córrego da Prainha e da Ponte da Confusão, onde ruas sem calçamento, um solo com muito pedregulho e bastante declives, criavam um ambiente propício para essa animada garimpagem urbana.

 Trago indelével na mente a lembrança de alguns desses catadores, personagens marcantes de minha infância: Seu Dito de Dona Cidu – sisudo e rabugento; Seu Zé Canhambola – animado e bem humorado; Seu Pedro Chagas – ativo e conversador; Seu Sebastião Farias – austero e unha de fome; Seu Anísio Almeida (meu sogro) – falante e contador de histórias; Seu Antonio de Dona Nhanhá – calado e sério.

Com eles aprendi a recolher em um vidrinho de remédio específico os fragmentos de ouro que encontrava. Para mim e meus amigos de infância (Juvi, Juca, Altamir, Nego, Dega, etc), o pós chuva era uma festa, pois nos dava a oportunidade de conseguir dinheiro para o ingresso do cinema e do circo e para a compra de guloseimas.

Nos divertíamos catando ouro e competindo uns com os outros para ver quem tinha mais sorte… Mesmo não encontrando grandes quantidades e nem pepitas valiosas, cada pedacinho de ouro que recolhíamos naqueles vidros somavam sonhos em nossos corações, alimentavam fantasias em nossas mentes… A vida não era fácil, mas naquele jeito simples de ser encontrávamos alegria de viver…

Aqueles eram momentos que nos enchiam de alegria e nos faziam crer no amanhã. Nossas almas se faziam leves, fáceis de serem elevadas até Deus. Catando ouro na rua, ninguém buscava riquezas materiais… Buscávamos a vida. Éramos catadores de esperanças!

Infelizmente, em nome do progresso, as ruas ganharam calçamento e o asfalto pôs fim à catação de ouro pelas ruas da cidade. A esperança não podemos mais encontra-la em coisa tão singela. Nem se pode mais catá-la no meio da rua… A chuva ainda é uma bênção… A cidade e os homens é que não são mais os mesmos!

Maurides Celso Leite (um garimpeiro cuiabano que catava esperanças pelas ruas da cidade, prospectando sonhos de um futuro feliz, no tempo em que a vida comunitária fazia dos vizinhos amigos e da convivência diária um exercício permanente de solidariedade e de camaradagem).

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Ser ou Não Ser (Honesto), Eis a Questão

 

O cuiabano tradicional era metido a pensador,

Matutava a vida, ora numa rede à sombra, no quintal,

Ora, filosofando pancudo, numa roda de amigos.

Pensava a vida com seriedade e compromisso, afirmando valores ancestrais

Com a autoridade de quem sabia o que falava.

Sua fonte de sabedoria era o berço, a família,

Onde nutria a mais-valia da dignidade, da honradez e do trabalho.

O cuiabano era culto ou rústico. Ignorante, jamais.

Desfrutava de um saber que a cidade inspirava.

Na solidão de seu isolamento geográfico

A urbe pequena e mansa convidava à reflexão.

O cuiabano ostentava pose de filósofo, era pancudo,

Porque detinha a autoridade moral de ser aquilo de que falava.

Sua riqueza era o ser e o saber vivenciado no dia a dia.

E esse patrimônio não se corrompia. Não cedia à tentação.

A vida era simples, como a cadeira na calçada e a prosa com os vizinhos.

Hoje, porém, na modernidade de nossos dias,

Diante desse festival de iniquidades que assola o país,

O cuiabano se apropria do dilema Shakespeariano na peça HAMLET,

Para chamar a atenção de todos os que vivem neste torrão, dizendo:

Ser ou não ser (honesto), eis a questão!”,

Essa é uma provocação de quem se orgulha de sua história

De quem não  se conforma com a crise que devasta a pátria envergonhada.

De quem não aceita ser mero expectador do caos.

O cuiabano sabe que seus filhos serão vítimas da passividade

caso não faça algo aqui e agora.

Então responde ao dilema acima com atitude e compromisso,

Invocando os valores que empolgaram seus avós:

“Ainda que doa, vale a pena ser honesto!”

(Maurides Celso Leite, um Cuiabano pancudo que, diante da crise ética que desafia a nação brasileira, relembra, pesaroso, a sombria advertência de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.)

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“O PRAZER DE SER CUIABANO”

Ser Cuiabano é um prazer

Que se come no pacu assado com recheio de farofa de couve

E que se delicia na mojica de pintado com farofa de banana.

Ser Cuiabano é um prazer

Que se saboreia na manga colhida no quintal de casa

E que se bebe no licor de pequi degustado pós Maria Isabel.

Ser Cuiabano é um prazer

Que se tem no balanço da rede cuiabana, sussurrando na varanda,

E que se ouve no som do pau-de-guaraná-ralado-na-glosa, de manhãzinha.

Ser Cuiabano é um prazer

Que se dança no animado arrasta-pé do rasqueado

E que se admira no Siriri e no Cururu das festas ribeirinhas.

Ser Cuiabano é um prazer

Que se inicia na vida que o rio entrega à cidade-filha

E que se perpetua na água  que mata a sede da cidade-mãe.

Ser Cuiabano é um prazer

Que se expressa na beleza desse céu sempre azul

E que se encarna  no calor desse sol brilhante e quente.

Ser Cuiabano é um prazer

Que se revela no jeito amigo e hospitaleiro do nosso povo

E que se vê impresso na alma alegre e festiva de nossa gente.

Ser Cuiabano é um prazer…

Que se sente… Que se sente.

Maurides Celso Leite (um homem abençoado que carrega na alma os sabores da terra e que, por isso, desfruta do inigualável  PRAZER DE SER CUIABANO).

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“AMOR CUIABANO”

HÁ TANTO TEMPO VIVENDO EM SEUS BRAÇOS

E SÓ HOJE ESCANCARO AO MUNDO O MEU AMOR POR VOCÊ…

ESSE SENTIMENTO QUE GUARDEI NO ANONIMATO DO MEU PEITO

E QUE SE REVELA NO INCONSCIENTE COLETIVO DE SEUS TANTOS OUTROS AMORES.

VERDADE QUE NUNCA TIVE CIÚMES QUE OUTROS TAMBÉM A AMASSEM,

 POIS ORGULHA-ME VÊ-LA TÃO QUERIDA.

SINTO-ME FELIZ TAMBÉM POR VOCÊ CORRESPONDER

AO AMOR DE TANTOS HOMENS.

POR SE DESVELAR EM CARINHO

ATÉ POR AQUELES QUE LHE SÃO INFIÉIS.

NÃO HÁ QUEM RESISTA A ESSE SEU JEITO BREJEIRO, FESTIVO, CALIENTE E SENSUAL,

 QUE ARREBATA MENTES E CORAÇÕES DE TODOS,

DEIXANDO-NOS ATÔNITOS E PERDIDOS

NOS ALTOS E BAIXOS DE SUAS SALIÊNCIAS E REENTRÂNCIAS…

MESMO SENDO RICA E BELA

VOCÊ NÃO DESPREZA NEM O MAIS MISERÁVEL DOS SEUS AMANTES,

AOS QUAIS NUNCA NEGA A PROTEÇÃO DO SEU COLO

 E O REGALO DO SEU CORPO ACONCHEGANTE.

POR ISSO, HOJE, EM SEU ANIVERSÁRIO,

OUSO AO MUNDO REVELAR

QUE MINH’ALMA CUIABANA

TODA INTEIRA SE UFANA

DE LHE PERTENCER E AMAR.

EU TE AMO, CUIABÁ!

FELIZ ANIVERSÁRIO!

Maurides Celso Leite (um cuiabano apaixonado por sua terra, essa morena linda e trigueira, quase tricentenária, que, mãe, mulher, amante e companheira, lhe deu um berço aquecido, aconchegante e feliz, no qual também foram gerados e acarinhados os seus filhos e netos).

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A POSSIBILIDADE “LAURITA” OU “CASCABUIA” DE SER FELIZ

Na aurora da minha vida, quando o descompromisso da infância enchia de ilusões, devaneios e sonhos todas as horas do meu dia, ser feliz era uma possibilidade ao alcance da mão. A felicidade era quase uma consequência lógica e natural… Viver e ser feliz.

Nas peladas de rua com os amigos, nas brincadeiras de soltar pipa (pagagaio ou pandoga, como dizemos os cuiabanos), ou no jogo de bolita (bolinha de gude, para os paus rodados), havia uma inabalável certeza de ser feliz…

A única dúvida era se a vida ia ser “LAURITA” ou “CASCABUIA”, como os guris cuiabanos distinguiam as bolitas lisas e reluzentes das bolitas cascudas e lascadas.

O caminho para a felicidade poderia ser “LAURITA” OU “CASCABUIA”, segundo os insondáveis desígnios Divinos… Mas, certamente, sempre haveria um caminho. Pairava no ar uma promessa de felicidade… que fatalmente seria cumprida.

Infelizmente, o tempo passou e as coisas mudaram! Hoje, vivemos um tempo de permanente aflição e de angustiante incerteza… E a vida se revela “cascabuia” para todos.

A felicidade já não acena para nós logo adiante… Já não mais parece tão palpável, tão ao alcance das nossas mãos… Por que será que as pessoas crescem? Por que será que deixamos de ser crianças, de acreditar nos sonhos, de confiar no próximo?

Lendo um livro recentemente encontrei um princípio de explicação: o homem deixou de ser simples e desambicioso… A felicidade não a encontramos mais em um mero prato de comida que satisfaz a nossa fome e necessidade de comer.

Queremos uma felicidade sofisticada, de roupas de grife, de casas bonitas, de carros do ano, que coma em restaurantes, que fale idiomas, que viaje pro exterior, que use iphones, smartphones, ipads e ipods.

Perdemos a referência de nós mesmos e de nossas origens porque o TER transcendeu o SER. Fomos vencidos pela Sociedade de Consumo… Hoje vivemos a volúpia da Sociedade de Posses… Só é feliz quem tem!  Por consequência, na modernidade de nossos dias, somos insaciáveis, insatisfeitos e infelizes!

Para mudar esse quadro e retomar o caminho da felicidade será preciso que voltemos à infância, em busca da criança inocente que acreditava na vida e nos homens…

Será preciso volver à simplicidade do jogo de bolita: Não importa se a vida é ‘cascabuia” ou “laurita”, se posso brincar, sou feliz!

 

Maurides Celso Leite (um guri cuiabano saudoso dos tempos em que a felicidade andava de pés no chão, tomava banho nas águas límpidas do córgo da Prainha e trepava nas mangueiras dos quintais em busca de uma manga perpitola).

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A BAGAGEM DO HOMEM DE BEM

Cada pessoa, ao nascer, recebe das mãos de Deus uma bagagem vazia para ir armazenando, vida afora, os frutos que seus talentos permitirem conquistar.

A vida é um processo sucessivo e contínuo de acumulação de valores, bens, sentimentos e sensações. De ganhos e perdas também… Parodiando o cientista francês, Lavoisier, pode-se dizer que, na vida, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

Ao longo de sua caminhada no mundo, o homem vai amealhando conhecimentos e experiências, que pode ou não transformar em sabedoria, em força motriz de crescimento e de desenvolvimento humano.

Em que pese, no curso da vida, tenhamos que enfrentar forças contrárias e hostis, ainda assim depende de cada um de nós armazenar ou não esses elementos em nossas almas, corações e mentes, e convertê-los em instrumentos das nossas vitórias ou derrotas.

O homem não é bom ou mau por uma determinação biológica, histórica ou social… Antes o é por uma opção pessoal… Podemos escolher a face iluminada da vida, o lado do bem, para a realização dos nossos sonhos e projetos, ainda que tenhamos que percorrer um caminho mais difícil e trabalhoso para alcançarmos os nossos objetivos…

Ou podemos escolher o lado do mal, sacrificando consciências e valores éticos e deixando-nos seduzir por vantagens e promessas inconfessáveis, movidos apenas pelo desejo de vitória fácil e a qualquer custo.

O certo é que a opção é nossa.  Se escolhermos um ou outro caminho, os louros e as decepções, o sorriso e o pranto serão de nossa responsabilidade. De mais ninguém! Durante a nossa jornada na terra, pouco a pouco vamos enchendo a nossa bagagem. Se a enchermos de joias valiosas ou de cacarecos imprestáveis, a responsabilidade será somente nossa.

Se o homem fizer suas escolhas pelas réguas da ambição, da vaidade, do prazer, no final de sua jornada, ao invés de portar uma bagagem cheia de grandes e perenes valores, estará carregando às costas um saco furado, por onde terá escorrido a ilusão de seus falsos valores.

Um homem de bem fará suas escolhas pelas réguas do amor, da verdade, da consciência, do labor. Nessa empreitada, Deus será seu fiador, seja ele crente ou não. Ao desembarcar na Estação, estará portando uma bagagem repleta de bens valiosos… Sua recompensa será a paz e a felicidade dos justos.

Ainda há tempo para trocar os cacarecos de sua bagagem por joias legítimas, que são tesouros aos olhos de Deus e fonte da verdadeira felicidade. Adote a Bagagem do Homem de Bem, viva em paz com sua consciência, seja feliz e ajude a transformar o Brasil em uma Estação melhor para todos os seus passageiros!

Maurides Celso Leite (um Cuiabano de Tchapa e Cruz, inconformado com a torrente de indignidades que infelicita este país, filosofando sobre a esperança de que os Homens de Bem ainda possam triunfar e redimir a nação brasileira).

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“A VOLTA DO “BRIO NA CARA”

APÓS LONGA AUSÊNCIA, TORNA À ATIVA O BLOG SOUL CUIABANO.

E VOLTA EM UM MOMENTO EM QUE O POVO PERPLEXO EXCLAMA,

PELA  VOZ  TCHAPA E CRUZ DO CUIABANO: AGORA QUEQUEESSE!

CHAMEMOS DE PAUSA PARA MATUTAÇÃO ESSE TEMPO DE AUSÊNCIA.

ISTE COISAS ACONTECERAM NESSE ENTREMEIO. OU MELHOR, DESACONTECERAM.

O POVO SAIU ÀS RUAS PRA MANIFESTAR SUA INDIGNAÇÃO,

MAS SE DEPAROU COM OS BADERNEIROS BLACK BLOCS (BLOCOS NEGROS),

PLANTADOS PELO SISTEMA PARA DESMORALIZAR O MOVIMENTO.

O BRASIL ORGANIZOU E PERDEU A COPA DO MUNDO, EM CASA, DE 7 A 1, PRA ALEMANHA.

AS OBRAS DA COPA QUE IRIAM DEIXAR CUIABÁ PODRE DE CHIQUE, OU NÃO FICARAM PRONTAS ATÉ HOJE, OU FORAM TÃO MAL FEITAS, QUE, OITO MESES DEPOIS, JÁ CARECEM SER REFEITAS.

O POVO APRENDEU QUE ADITIVO É SINÔNIMO DE ROUBALHEIRA. QUE A PETROBRÁS É DAS EMPREITEIRAS E QUE DO POÇO DO PETROLÃO BROTA ROUBO DE BILHÃO.

ENQUANTO ISSO A POLÍTICA LOCAL TÁ ATÉ NA ORÊIA DE ESCÂNDALOS ADMINISTRATIVOS E FINANCEIROS.

OS POLÍTICOS NÃO QUEREM ATCHAR A VERGONHA PERDIDA… NUM TÃO NEM AI PRÁ PAÇOCA

E O DINHEIRO PÚBLICO SOME PELOS RALOS DA CORRUPÇÃO.

FIEL À ALMA GENTIL DE NOSSA GENTE, ESTE BLOG CLAMA PELA VOLTA DO BRIO NA CARA…                     QUALIDADE CARA À VELHA CUIABANIA…

FULANO TEM BRIO NA CARA: TEM CARÁTER. HONRADEZ. DIGNIDADE. VALOR.

QUEM TEM BRIO, TEM VERGONHA NA CARA. VIRTUDES HOMÔNIMAS, QUE SE COMPLETAM.

JÁ PASSA DA HORA DE SE EXIGIR DOS HOMENS PÚBLICOS O BRIO E A VERGONHA NA CARA

COMO PRÉ-REQUISITOS PARA ATUAR NA VIDA PÚBLICA E PRESTAR SERVIÇOS À COMUNIDADE.

SE NÃO TEM BRIO NA CARA, NÃO MERECE CONFIANÇA, MENOS AINDA O VOTO.

SÓ UM POVO BRIOSO SERÁ CAPAZ DE DESAPEAR DO PODER OS CHOPINS DO DINHEIRO PÚBLICO…

E O BRADO RETUMBANTE DESSA VOZ QUE VEM DAS RUAS SINALIZA NESSE RUMO…

AS MANIFESTAÇÕES DO DIA 15 DE MARÇO QUE O DIGAM!

QUEM TEM OLHOS QUE VEJA! QUEM TEM OUVIDOS QUE OUÇA!

ABAIXO A FALTA DE VERGONHA NA CARA!

ARRIBA O BRIO NA CARA!

VAMOS RUFAR O PAU NA SEMVERGONHICE, XOMANO!

(Maurides Leite, um cuiabano da beira do Rio Cuiabá… transitando na saudade – de Jardineira – entre a Ponte do Mandrulho, no Terceiro de Fora, e a Ponte da Confusão, no Baú sereno).

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“FALANDO CUIABANÊS”

No início da década de 70, a chegada da televisão e o  começo do moderno processo de colonização do Estado, trouxeram para Cuiabá um choque cultural.

Levas de migrantes do Sul Maravilha,  com usos, costumes, falares e culturas bem diversos da população nativa, passaram a dominar a cena econômica, política e social local. Os programas de televisão, por sua vez, inundaram as casas, bombardeando a nossa cultura.

Então, a nossa gente simples refluiu em seu linguajar. Muitos de nós chegamos a nos envergonhar do nosso diferente jeito de falar.

Todavia, a partir do movimento cultural Muxirum Cuiabano*, do início da década de 90, Cuiabá pouco a pouco retomou o orgulho dos seus valores. Da sua gente. Das suas tradições.

O cuiabanês passou a ser reconhecido como uma riqueza desta terra. Como um caldo cultural, que mistura o português do colonizador, a fala caipira do Bandeirante, o dialeto do negro africano e a língua-terra do índio bororo.

Puta Merda! – Exclama o cuiabano, diante de uma surpresa. Diante do inesperado. De um perigo raspante.    De um susto. Não é palavrão. Não é xingamento. É a língua. É o povo. Em sua expressão mais pura. Mais genuína. Mais criativa.

Tocera, é o sujeito metido. Convencido. Cuiabano, porém, é simples, sem nem um chiriri de vaidade. Chiriri é pouquinho.

Digoreste é o sujeito bom naquilo que faz. Muito capaz. Talentoso. O cuiabano teve que ser bem digoreste para fazer civilização em um rincão distante. Isolado do litoral. No meio do mato grosso do Brasil Central.

E esta terra produziu iste ouro – de tchapa e cruz – que encheu as burras da coroa portuguesa. Terra rica em ouro. Rica também em criatividade linguística. Iste, quer dizer muito. Tchapa e cruz, quer dizer “genuíno de Cuiabá”. Cuiabano nativo. Tradicional.

Tchá por Deus (admiração, espanto), já falei demais. Ta na hora de parar. Agora quando? Manifesto-me em dúvida, leitor amigo.

Outro dia eu vorto pra falar de bofeira, monzuarte, tabufa e corcoveia.

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* Muxirum Cuiabano – Movimento de Resgate e Fortalecimento da Identidade Cultural Cuiabana.  Muxirum é o jeito cuiabano de falar mutirão.  Trabalho coletivo e solidário em prol de uma pessoa ou comunidade.

Fonte: Equipe Soul Cuiabano

Autor: Maurides Leite

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Rio Cuiabá +100

ECO-92 foi o nome dado à 2ª Conferência Mundial Para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também chamada 1ª Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992.

Basicamente, essa Conferência teve como foco a discussão de uma proposta de desenvolvimento sustentado, de um modelo de crescimento que harmonizasse preservação ambiental e desenvolvimento econômico.

Biodiversidade (diversidade genética e de habitat entre os seres vivos) e Biopirataria (saída ilegal de material genético de um país para outro) foram algumas das expressões que ganharam destaque na mídia e caíram na voz do povo.

De 13 a 22 de junho, no Rio de Janeiro, se realiza a Rio + 20, que vem a ser a ECO-92, reeditada 20 anos depois, para avaliar as conquistas e fracassos ambientais, ocorridos desde então, propondo novos rumos e soluções para a sobrevivência do homem e do planeta terra.

A Agenda 21, documento mais importante da ECO-92, subscrita por 179 países, deveria ter sido uma Cartilha de Desenvolvimento, a ser seguida por todos: países, povos e empresas.

Perguntemo-nos: o que foi feito? O que fizemos? O que podemos fazer?

Cuiabá é fruto inconteste do Rio Cuiabá. Sua vida simples, gostosa e  sossegada replica as características do rio. Sua gente indômita, pacífica e alegre reproduz as virtudes do rio.

Mas o Rio Cuiabá agoniza, cheio de lixo, sujeira e poluição. Tem pouco peixe e já não tem tanta água. Convém perguntar: se o rio morrer, o que será de Cuiabá e de sua gente? O que será das cidades ribeirinhas? O que será do Pantanal que, tal como nós, bebe de suas águas?

O rio Cuiabá, não pode continuar órfão de nós que vivemos às suas margens. Por isso, conclamo a todos para cumprirmos a AGENDA 21 perante o Rio Cuiabá.

Vamos preservá-lo por mais 100 anos! Se o rio vive, nós vivemos!

RIO CUIABÁ + 100.

Fonte: Equipe Soul Cuiabano

Autor: Maurides Leite, um cuiabano da beira do rio, com saudades dos banhos na pedra 21 e dos tempos em que podia beber diretamente das águas do rio.

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“Santo Antonio – Uma devoção de família”

Hoje, 13 de junho, é dia de Santo Antonio. Dia do santo casamenteiro. Dia de apelar aos poderes milagrosos do santo e também de agradecer-lhe as graças alcançadas.

Virgens arrependidas e donzelas juramentadas, todas alevantam os olhos pra Santo Antonio, em busca de cumplicidade e de parceria nas tramas e teias do coração.

Mas, Santo Antonio não atrai apenas homens e mulheres a procura de amor. Ele também atrai uma forte devoção-religiosa-cristã. Que une pessoas. Reúne famílias. Sustenta a fé.

Há mais de 80 anos, meu avô, João Evangelista Padilha, no coração do Pantanal, em seu sítio, no “Estirão Comprido”, à beira do rio Cuiabá, em Barão de Melgaço, iniciou a nossa família na devoção a Santo Antonio.

Ainda solteiro, com 18 anos, vovô havia achado uma pequena imagem de Santo Antonio. Tomou-se, então, de fé por aquele Santo, que o acompanhou pela vida afora.

Casado com Nhanhá, – vovó Guilhermina Viegas de Pinho – vovô passou a realizar a Festa de Santo Antonio todos os anos, em sua residência. Não à toa, o seu primeiro filho veio a chamar-se Antonio. Foram dez filhos. Seis homens e quatro mulheres. Todos devotos de Santo Antonio.

Segundo minha mãe, Celina, a festa era muito bonita e animada. Vinha gente de todo lado. Do rio acima e do rio abaixo. De Barão e de Mimoso. De Porto Brandão.

Parentes e amigos, todos se juntavam pra preparar a festa. Pra rezar e cantar. Pra dançar o Cururu. Pra dançar o siriri. Pra Comer e se divertir. E a alegria corria solta. Ao som plangente da viola. Ao roçar troante do ganzá. Ao rufar marcante do banco de couro.

Vovô, além de tocar a Viola de Côcho, puxava a Reza Cantada,  que animava os fiéis e instilava a devoção nos corações de todos.

Defronte da casa era erguido um “Empalizado” de folha de acuri. O salão de festas, onde tudo acontecia. As rezas. As danças. A bebeção. A comedoria.

A fartura era grande. Muita comida. Galinha. Porco. Boi. Muitos doces. De goiaba. De caju. De abóbora. De mamão. De leite. Muita cachaça caseira. De alambique. Muita conversa fiada. Muita animação.

Meus avós se foram. Ficou uma família enorme. Com mais de 200 pessoas. Filhos. Netos. Bisnetos. Todos cheios de saudades e de fé. A devoção se perpetuou. Anualmente, celebra-se o padroeiro em uma grande festa da família.

Dia 17/06, sob a coordenação de tio Nhonhô, tia Isa e do primo Jorge, Santo Antonio será novamente festejado pela família. Certamente, a animação será grande. Com muita fé e devoção. Com muitas lembranças de Nhanhá e Vô Jão.

 Viva, Santo Antonio!

Fonte: Equipe Soul Cuiabano   

Autor: Maurides Leite  

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